“A amamentação não é algo instintivo. Exige paciência, aprendizado e treino”

Entrevista com Rosane Baldissera, consultora em amamentação



A amamentação e tudo o que envolve o aleitamento materno são os grandes valores que movem a missão da Pingente de Amor. Por isso, entrevistamos essa semana a nutricionista e consultora em amamentação, Rosane Baldissera, que fala sobre os principais desafios quando o assunto é amamentação. Segundo ela, “amamentação não é algo instintivo e que quando o bebê nasce ela já se estabelece no primeiro momento. (...) É um processo que exige muita paciência, porque amamentar e mamar exige treino e mais treino”. E sobre a Pingente de Amor, Rosane afirma que “o sentimento que fica guardado em cada peça de leite materno petrificado é um sentimento único de força, de superação, de orgulho de ter conseguido. Amamentar não é fácil. Todas as mães que amamentam se superam, em qualquer dificuldade que seja. E mesmo não tendo dificuldades, se superam no quesito dedicação, porque amamentar cansa. É algo muito sublime que está guardado ali, naquele pingente: é amor. Não é à toa que o nome é Pingente de Amor. Foi o líquido que nutriu nosso bem mais precioso por algum tempo, que é o leite materno. São sentimentos muito nobres que estão guardados ali”.


Rosane Baldissera é consultora internacional em amamentação e desmame gradual. É nutricionista formada pela IPA, mestre em Saúde da Criança pela UFRGS, especialista em nutrição clínica pela UGF, e coordenadora do International Board Lactation Consultant Examiners (IBLCE) no Brasil. É pioneira na atuação em Consultoria em Amamentação no Rio Grande do Sul. Tem mais de 15 anos de experiência prática em amamentação (área hospitalar e clínica privada), além de conhecimento científico na área.


Confira a entrevista:


A amamentação, apesar de ser algo natural, nem sempre é automática. Muitas vezes exige uma rede de apoio até que, de fato, esteja estabelecida...

Realmente, a amamentação não é algo instintivo, um processo de puro instinto. Ela exige muito aprendizado da dupla “mãe-bebê”. Tanto a mamãe precisa aprender a amamentar – e ela tem o instinto de fazer isso, mas precisa desse processo de aprendizagem –, quanto o bebê, que nasce com o instinto da sucção, precisa aprender a mamar, pois sugar e mamar são coisas bem diferentes. Então, é importante alguém tocar nesse tema. Amamentação não é algo instintivo e que quando o bebê nasce ela já se estabelece no primeiro momento. Para poucas duplas isso acontece como algo mais instintivo. Mas para a grande maioria não. É um processo que exige muita paciência, porque amamentar e mamar exige treino e mais treino. A gestante ou nova mãe precisa estar ciente dessa condição, porque muitas grávidas romantizam a amamentação, achando que o bebê vai nascer e já sair mamando. Quando se deparam com as dificuldades, se frustram em relação ao processo. Sabendo que terá que passar por um processo de aprendizado, a mãe terá mais tolerância e mais conhecimento em relação a isso. Realmente é necessária uma rede de apoio familiar, principalmente para a execução das tarefas da casa, e também uma rede de apoio que tenha conhecimento especializado e que possa auxiliar a mãe a conhecer mais sobre a amamentação, o que pode acontecer e como resolver as dificuldades, que são várias. Hoje as mamães podem contar com a ajuda das consultoras em amamentação, que tem o conhecimento específico em aleitamento e podem fazer parte desta rede de apoio.


Quais as principais dificuldades encontradas pelas mamães ao colocarem seu recém-nascido pela primeira vez no peito?

A principal dificuldade encontrada pelas mães ao colocarem pela primeira vez seu bebê para mamar é a questão do posicionamento e da pega, de como segurar o bebê, como ajudar o bebê a fazer a pega, identificar se o bebê está pegando certinho, se está fazendo uma boa sucção, se está sendo efetivo na mamada. Principalmente nas primeiras idas do bebê ao seio a maior dúvida das mães é sobre como colocar o bebê para mamar, no sentido de facilitar para garantir uma boa pega. Muitas vezes as mamães sentem dor quando o bebê mama, e a dor é um sinal de que algo não está bem, que precisa ser ajustado. Outra dificuldade se relaciona aos bebês que, quando colocados no peito da mãe, não mamam no seio. Daí precisamos identificar quais as causas desse comportamento, para poder intervir o quanto antes e fazer com que a amamentação se estabeleça.



Quais as principais demandas que chegam até você por meio das mães que buscam sua consultoria em amamentação?

São várias as demandas. Eu digo sempre que prevenir é o melhor remédio. Então, uma demanda crescente, atualmente, é de gestantes procurando atendimento de consultoria em amamentação já na gestação, buscando orientações em relação à técnica, às principais dificuldades e como podem ser resolvidas. Então, o conhecimento, em si, durante a gestação, facilita, e muito, o processo de amamentação no pós-parto. As mães que recebem o atendimento já na gestação ganham o bebê com informações de qualidade, individualizadas e ficam mais seguras e tranquilas em relação ao início e ao seguimento da amamentação. A demanda mais comum depois do nascimento do bebê é a dificuldade das mães ao amamentar. A principal delas é a dor, ou bebês que têm baixo ganho de peso em aleitamento materno, bebês que não conseguem mamar no seio, baixa produção de leite, e dúvidas das mais diversas. Pensando como prevenção das dificuldades o ideal seria o seguinte: a mãe ganhou o bebê e está com alguma dúvida, acha que o processo não está indo bem, que procure ajuda o quanto antes. Por que quanto antes acontecer a intervenção correta e o esclarecimento das dúvidas, conseguimos evitar muitas dificuldades que, com o tempo, se tornam mais difíceis ainda.


O que pode ser feito para motivar as mulheres que não acreditam na própria capacidade de amamentar?

É difícil responder essa questão, porque a motivação é algo que vem de dentro da pessoa. Podemos até influenciar as mulheres a querer amamentar, através de campanhas, mostrando os benefícios da amamentação. Toda a sociedade já sabe os benefícios do aleitamento materno para a mãe e para o bebê. Mas as campanhas sempre são bem-vindas. Então, espalhar a informação em todos os meios sobre esses benefícios é a principal forma de motivar essas mães. No entanto, a gestante e a mãe devem conhecer os benefícios, porque isso as levará a querer amamentar. Nós somente nos sentimos motivados a fazer algo quando existe um retorno, um benefício. Pensando nos benefícios do leite materno e da amamentação, isso por si só já seria uma grande motivação para aquela mãe. E quando ela começa a amamentar e vê que seu bebê está ganhando peso, crescendo saudável, tem uma motivação enorme. Cabe a nós, a sociedade, os profissionais que trabalham nessa área, quem está ao lado daquela mulher diariamente, que incentive, dê o apoio direto. Afinal, não existe nenhum alimento igual ao leite materno.


“É da nossa natureza de mamíferos humanos amamentar e ser amamentado”

Mães que não geram seus bebês no ventre, ou seja, mães que adotam, através de um trabalho de lactação induzida, conseguem produzir leite e amamentar os bebês adotados. Então, para aquelas mães que não acreditam que podem produzir leite para o seu bebê ou que não conseguem amamentar, eu digo o seguinte: se mães que não geraram conseguem, então porque tu não conseguirias? É claro que nem todas as mães conseguem amamentar, por vários motivos, e nem todos os bebês conseguem mamar. Então não podemos generalizar essa questão, afirmando que somente o querer amamentar é o suficiente. Porque não é. Eu já acompanhei várias mães que queriam muito, fizeram de tudo para amamentar, e não conseguiram. Mas a grande maioria das mulheres tem capacidade para amamentar seus bebezinhos e seus bebezinhos têm capacidade de mamar nas suas mamães. Se a mãe não acredita na sua capacidade, precisamos investigar o porquê disso, o que tem de emocional envolvido nisso, o que tem no aspecto psicológico dessa mulher que a faz não acreditar que pode nutrir o seu bebê. Muitas mães acreditam que não têm capacidade de amamentar seu bebê, mas a grande maioria tem. É da nossa natureza de mamíferos humanos amamentar e ser amamentado.


Qual a história de consultoria em amamentação que você mais gosta de lembrar, no sentido de resgatar algum case como testemunho de sucesso, graças à perseverança de todos envolvidos?

Tenho vários cases interessantes, mas um deles eu nunca vou esquecer por toda a minha vida. Era um bebezinho de dois meses que há um mês não mamava mais na mãe, porque ele começou a mamar no primeiro mês, mas não teve um bom ganho de peso nos primeiros dias. O pediatra indicou a fórmula na mamadeira e a mãe começou a dar. Em duas semanas o bebê já não queria mais o peito, brigava para mamar no seio. A mãe desistiu da briga, óbvio. Passou um mês sem amamentar, o bebezinho não ia mais nem na posição, no colo. Se ele era deitado no colo da mãe, em posição direcionada ao peito, ele chorava compulsivamente, pois tinha criado uma relação de ódio pelo peito. Então ela me chamou para fazer um trabalho de relactação, que é quando o bebê não mama mais e a mãe quer voltar a amamentar. Essa mãe queria muito, e o marido dela (pai do bebê), também estava super envolvido, ajudando muito essa mãe nesse processo, o que faz muita diferença. A família toda pegou junto, fizemos o processo e esse bebezinho voltou a mamar em duas semanas no seio da mãe. É uma história que até hoje eu lembro, porque a mãe chorava, dizendo que queria muito amamentar. E talvez por falta de informação e sem poder escolher, lá no início, ela deu a mamadeira e ele desmamou. Mas ela conseguiu resgatar esse processo com sucesso. Foi muito gratificante ver aquele bebezinho voltar a mamar.


Qual sua opinião sobre a missão da Pingente de Amor, que eterniza em forma física a recordação da amamentação?

A ideia da Pingente de Amor me deixou maravilhada quando fiquei sabendo. Na época eu ainda amamentava meu guri e pensei: que bom que isso surgiu agora, vou fazer meus pingentes e toda vez que eu usá-los vou lembrar que aquele ali é o meu leite, que nutriu por anos o meu bebê, que fez ele crescer de forma saudável, que eu consegui me superar na amamentação e atingir os meus objetivos. Significa guardar uma recordação física de algo que foi um momento único na minha vida de mãe. Então é algo muito grandioso, uma ideia super genial.


Que sentimentos você diria que ficam eternizados em cada joia de leite materno petrificado?

O sentimento que fica guardado em cada peça de leite materno petrificado é um sentimento único de força, de superação, de orgulho de ter conseguido. Amamentar não é fácil. Todas as mães que amamentam se superam, em qualquer dificuldade que seja. E mesmo não tendo dificuldades, se superam no quesito dedicação, porque amamentar cansa. É algo muito sublime que está guardado ali, naquele pingente: é amor. Não é à toa que o nome é Pingente de Amor. Foi o líquido que nutriu nosso bem mais precioso por algum tempo, que é o leite materno. São sentimentos muito nobres que estão guardados ali.


Fotos: Arquivo pessoal da entrevistada.

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