“Sempre podemos fazer mais para proteger, promover e apoiar a amamentação”


Ainda no clima do Agosto Dourado, a Pingente de Amor entrevistou um renomado pediatra brasileiro, para falar sobre a chamada “Hora de Ouro”, ou seja, a primeira hora de vida do bebê. Nas respostas gentilmente enviadas para o nosso blog, Dr. Moisés Chencinski afirma que “o primeiro passo de uma jornada pode determinar ou definir para onde o caminho nos levará. E quando falamos de uma vida toda, a primeira hora pode fazer toda a diferença”. Sobre a Pingente de Amor, o médico considera que “o pingente [de leite materno], apesar de ser uma imagem muito delicada e sensível, tem uma grande força para marcar o carinho o amor, a dedicação, os desafios que envolvem a amamentação que, apesar de ser natural, nem sempre é simples ou fácil. É um marco da luta, do sonho, da realização.


Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com título de especialista em pediatria pela Associação Médica Brasileira (AMB), Dr. Moisés é formado pelo Centro de Pesquisa e Aperfeiçoamento em Homeopatia com título de especialista em homeopatia pela Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB). É presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo e membro do Departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo.


Dr. Moisés também é autor dos livros HOMEOPATIA mais simples que parece e GERAR E NASCER um canto de amor e aconchego. É editor responsável pela revista Doses Mínimas, sobre homeopatia e editor do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo, além de ser autor do blog Eu apoio Leite Materno. Seu site pessoal é www.doutormoises.com.br


Confira a entrevista:


Por que a primeira hora de vida do bebê é chamada de "hora de ouro"?

O primeiro passo de uma jornada pode determinar ou definir para onde o caminho nos levará. E quando falamos de uma vida toda, a primeira hora pode fazer toda a diferença. Essa primeira hora é conhecida como “hora de ouro”. O bebê nasce e, se tudo está bem, deve seguir uma rotina que compreende o contato pele-a-pele (independente de parto normal ou cesariana), o clampeamento oportuno do cordão (quando se aguarda que ele pare de pulsar, levando mais sangue ao bebê, que vai garantir o aporte de ferro necessário para os primeiros 6 meses) e a amamentação assim que possível, na própria sala de parto (já iniciando a trajetória recomendada pela OMS, pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Pediatria - aleitamento materno desde a sala de parto, exclusivo e em livre-demanda até o 6º mês, complementado, a partir daí, com alimentação saudável, até 2 anos ou mais).


Se algo não saiu como o planejado (prematuridade, problemas respiratórios ou qualquer outra alteração no recém-nascido), quanto antes são tomadas as medidas de controle e tratamento, melhor o prognóstico do bebê. Daí a importância do pediatra neonatologista em TODOS os partos, dentro da sala.


Qual a importância da amamentação já na primeira hora de vida do bebê?

Vários estudos mostram que amamentar o bebê na primeira hora de vida aumenta em cerca de 50% as chances de esse bebê ser amamentado até o 6º mês, em livre demanda, e forma exclusiva, sem necessidade de qualquer outro alimento ou líquido. No contato pele-a-pele e na mamada na sala de parto a mãe já passa as “bactérias do bem” (flora bacteriana favorável que vem do parto normal, da pele da mãe e do leite materno). A microbiota intestinal, primeira proteção do recém-nascido, já previne doenças neonatais graves e ajuda o bebê no caminho de uma nutrição saudável, com melhor crescimento e desenvolvimento, reduzindo chances de doenças.


Na sua opinião, a população brasileira, de modo geral, compreende a real importância da amamentação?

Apesar de termos mais divulgação, de estarmos na época de maior importância do tema (recente Semana Mundial de Amamentação e AGOSTO DOURADO), nossas estatísticas de 2006 a 2013 não são animadoras. Após uma grande conscientização e evolução das taxas de amamentação entre 1986 e 2006, hoje observamos uma estagnação e pequena diminuição de todos os índices, exceto a que diz respeito à amamentação até 2 anos que aumentou.


Hoje em dia, as redes sociais e a internet favorecem a divulgação, mas ainda temos muitos obstáculos e mitos que dificultam a adequada informação, orientação e apoio às mães.



Quais as principais mudanças na história do aleitamento materno no Brasil nos últimos anos? Qual a importância do "agosto dourado" nesse sentido?

Leis estão sendo modificadas e criadas nessa década que buscam apoiar a mãe que quer amamentar. A licença-maternidade de 180 dias (6 meses) para mães e 20 dias para os pais que trabalham em Empresas Cidadãs (não é para toda a população trabalhadora brasileira) já mostram alguns resultados. Leis municipais e estaduais (ainda não temos uma lei nacional) que protegem as mães que queiram amamentar em público, punindo quem constranger ou ameaçar a díade mãe-bebê existem, mesmo que não haja como imaginar que precisássemos de uma lei para isso. A lei NÃO OBRIGA as mães a amamentarem em público, mas PROTEGE quem quiser. A Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes (NBCAL – através da lei nº 11.265) normatiza a publicidade de fórmulas infantis, chupetas, mamadeiras, proibindo sua veiculação para grupos de famílias e até a profissionais de saúde, visando estimular, cada vez mais, a amamentação.


Mas, só saberemos dos resultados dessas ações em 2019, quando teremos uma nova pesquisa nacional de índices de amamentação (na sala de parto, média de aleitamento materno exclusivo – AME, média de AME ao 6º mês, com 1 ano e com 2 anos, entre outros índices). No entanto, com certeza, sempre podemos fazer mais para PROTEGER, PROMOVER E APOIAR a amamentação como é recomendado pelos órgãos e profissionais de saúde que lidam na área materno-infantil.


Agosto dourado – o ano todo

Desde 1991 se celebra a Semana Mundial de Aleitamento Materno (SMAM – a 27ª em 2018) e desde 2017 o mês dedicado à sensibilização e informação sobre a amamentação (AGOSTO DOURADO). Muitas campanhas são feitas tanto pelas instituições, como pelos órgãos oficiais e pelas ações do público em geral através das redes sociais, promovendo palestras, encontros, manifestações, sem a intenção de criticar ou julgar quem não amamenta, mas sim, a de apoiar e informar.


Tenho um movimento criado em 2015 (Eu Apoio Leite Materno) com ações em Facebook, Instagram, Site, Blog, Twitter, canal de vídeo no YouTube. Nesse ano, nos valemos de algumas hashtags para divulgar a amamentação.

#euapoioleitematerno

#amamentacaoeabasedavida (Amamentação é a base da Vida, que foi o tema da SMAM 2018)

#SMAM2018


Mas, apesar de um mês já ser melhor que uma semana, temos que falar sobre a amamentação O ANO TODO. Assim, em nosso movimento, substituímos a #SMA2018 por #amamentacaoanotodobrasil. Essa é a intenção: continuarmos na mesma intensidade a INFORMAÇÃO e o APOIO à amamentação, às mães e suas redes de apoio (o pai, companheiros, os avós, os outros familiares, a sociedade, a mídia, os locais de trabalho). Só assim, mudando a nossa cultura, normalizando a amamentação é que conseguiremos atingir cada vez mais e mais pessoas a cuidarem mais e melhor da amamentação.


A Pingente de Amor tem como missão eternizar a lembrança da amamentação por meio da petrificação do leite materno exclusivo de cada mamãe que desejar ter uma joia feita com o alimento que nutre seu bebê. O que o senhor pensa dessa proposta? Por que é importante marcar para sempre na memória a lembrança de tudo o que envolve os momentos da amamentação?

Tudo o que nos ligar à importância da amamentação, tudo o que sensibilizar, informar, for um marco para o mundo sentir a importância da amamentação é válido. Temos pingentes do primeiro dentinho da criança, não temos? Muitas mães andam com imagens que lembram seus filhos. Por que não o leite materno? Mesmo uma mãe que por qualquer razão não amamentou, e deve ser respeitada e nunca julgada por conta disso, sabe da importância da amamentação e pode fazer parte da rede de apoio e informação para amigas, familiares, vizinhas que queiram amamentar.


O Pingente, apesar de ser uma imagem muito delicada e sensível, tem uma grande força para marcar o carinho o amor, a dedicação, os desafios que envolvem a amamentação que, apesar de ser natural, nem sempre é simples ou fácil. É um marco da luta, do sonho, da realização.


Fotos: Arquivo pessoal do entrevistado.

88 visualizações0 comentário